‘2013 marcou o fim da Nova República’, diz filósofo sobre Jornadas de Junho

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Para Safatle, a população esperava por uma continuação do processo de melhoria das condições de vida da sociedade, o que não ocorreu, resultando nos protestos. Créditos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Neste dia 13 os protestos que tomaram junho de 2013 completam dez anos e, de lá para cá, a vida política do país transformou-se radicalmente. Para o filósofo e professor da USP, Vladimir Safatle, as manifestações marcaram o fim da Nova República, período histórico que se inicia após o fim da ditadura militar brasileira.

“O sistema de pactos, de conciliações, que marcou a Nova República foi também um sistema de travas e de impossibilidades e a população percebeu que esse sistema tinha chegado no limite”, afirma. O intelectual defende que as manifestações daquele ano foram a maior oportunidade perdida da história da esquerda brasileira, que não soube compreender aquela conjuntura.

“Foi o momento no qual seria possível ter posto uma outra agenda de debates mais vinculada ao aprofundamento da democracia direta, das politicas de combate à desigualdade, e no entanto, a posição da esquerda institucionalizada brasileira foi completamente reativa”, afirma.

Segundo ele, 2013 ainda não acabou e agora estaríamos vivendo uma era de extremos e de crise perpétua do capitalismo, cuja origem está na crise econômica de 2008 ainda não superada e que veio para ficar acabando com a ideia tradicional de que a política se faz pelo caminho do centro.

Entre afirmações contundentes como as anteriores, nesta entrevista à IstoÉ Safatle analisa o que gerou as Jornadas de Junho, porque elas tiveram a dimensão que tiveram e como elas influenciam a vida política do país até hoje.

Qual sua avaliação geral dos acontecimentos de 2013?

2013 foi a maior oportunidade perdida da história da esquerda brasileira, porque foi o momento no qual seria possível ter posto uma outra agenda de debates mais vinculada ao aprofundamento da democracia direta, das politicas de combate à desigualdade, e no entanto, a posição da esquerda institucionalizada brasileira foi completamente reativa.

Dessa forma, ela permitiu toda a dinâmica anti-institucional que existia no movimento, que tem suas razões e que não são razões simplesmente antipolíticas porque dizer isso é uma análise completamente equivocada. Em um país onde as instituições estão vinculadas a interesses econômicos muito profundos e a estruturas oligárquicas muito profundas, desqualificar o desejo por mudança institucional é algo politicamente desonesto e eu diria que esse desejo acabou sendo vocalizado pela extrema direita, criando uma situação como essa na qual a gente se encontra hoje, com uma extrema direita insurrecional e popular.

Porque as manifestações tiveram a dimensão que tiveram?

As manifestações tiveram a dimensão que tiveram porque a Nova República acabou naquele momento. O sistema de pactos, de conciliações, que marcou esse período foi também um sistema de travas e de impossibilidades e a população percebeu que esse sistema tinha chegado no limite.

É importante lembrar que a população brasileira esperava em 2010, 2011 que o Brasil fosse a quinta economia do mundo em 2015 e 2016. Esperava que a Copa do Mundo, as Olimpíadas, fossem um momento de reconfiguração estrutural das infraestruturas de nossas cidades e nada disso aconteceu e era muito claro porque havia um processo em que as dinâmicas de concentração de renda foram em larga medida intocadas.

Fala-se muito do aspecto não politico de 2013, que eram demandas genéricas e tudo isso é falso. Eu acho que as pessoas deveriam pensar bem quando fazem esse tipo de crítica. Na verdade, o que houve foi uma multiplicação de pautas. De junho a novembro no país, não teve um dia em que não houve algum tipo de manifestação popular com questões das mais variadas, como escola “padrão Fifa” e discussões sobre a qualidade da saúde. Isso mostrava uma sociedade em vias de retomar para si a dinâmica de enunciação das demandas políticas.

O que aconteceu é que ficou claro que tudo isso que tinha sido prometido para nós não seria realizado e isso fez com que a população quisesse tomar para si o processo de decisão. O conceito central para entender 2013 é a ideia de “frustração relativa” de Tocqueville (pensador francês), que diz o seguinte: quando as pessoas entram em revolta, elas não fazem o calculo do que elas tinham e do que tem agora. Elas calculam em relação ao que esperavam ter e o que de fato terão, então ela é relativa aquilo que se esperava. Enquanto não entendermos o sistema de expectativas que foi criado no Brasil e as travas que ficaram evidentes para todos, a gente nunca vai entender o que foi 2013.

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“O país parou em 2013 e está parado até agora nesse momento histórico”, afirma Safatle. Créditos: Werner Amann

De que forma 2013 influenciou a vida política do país nos anos seguintes?

O país parou em 2013 e está parado até agora nesse momento histórico, porque a partir de então a esquerda brasileira se tornou uma força reativa, sem capacidade de pautar a agenda política nacional, apenas reagindo às agendas decididas pela direita. Na verdade, a direita não existe mais porque ela foi substituída pela extrema direita, o que não é nada estranho em um país que teve o maior partido fascista fora da Europa, a Ação Integralista Brasileira (AIB), que teve um milhão e duzentos mil membros nos anos 30.

A questão fundamental do legado de 2013 é entender que, em situações de crise do capitalismo, e a situação em que nós estamos é de crise perpétua porque desde 2008 o capitalismo está em crise e ela veio para ficar e não ser superada, a ideia de que a politica se dá pela conquista do centro político desapareceu no mundo inteiro.

A politica se tornou uma consolidação de extremos e isso a extrema direita entendeu muito bem. Ela tem um discurso de ruptura que só pode ser contraposta a uma outra ruptura, mas a esquerda brasileira não consegue fazer isso porque ela é de classe média, nunca teve isso no seu horizonte e não sabe como lidar com essa situação.

Há interpretações sobre 2013 que atribuem os acontecimentos a influências externas, conspirações da CIA e ações de “guerra híbrida”. Como você avalia essas interpretações?

Eu acho essas colocações delirantes e irresponsáveis. Ninguém nega que os EUA sempre tentam interferir nos processos políticos que não são do seu agrado. Nós sabemos disso há 100 anos e não temos ilusão a esse respeito.

A questão, porém, não é essa. O ponto é que o governo estava tão fragilizado que qualquer tipo de mobilização ia dar no que deu. Havia um governo que se demonstrou incapaz de dar conta de vocalizações populares e esse processo não é só brasileiro, mas mundial. As revoltas similares às brasileiras não foram as que ocorreram na Ucrânia (Euromaidan), mas as que ocorreram no Chile, na Turquia, França, a dos “indignados” na Espanha e a Primavera Árabe. Elas são insurgências contra os custos sociais do neoliberalismo, que estavam claros nesse caso. É sempre bom lembrar que 2013 foi o ano com o maior número de greves da história brasileira, com 2050 greves. Foram greves feitas pela CIA?

As Jornadas de Junho contribuíram para o crescimento da extrema-direita no Brasil?

O problema da esquerda brasileira é que ela esqueceu o que leu de Marx. Se ela lembrasse do que leu, saberia que todos os processos de insurreição popular sempre são processos que emergem dois tipos de sujeito: um que tem a capacidade de transformação social e uma espécie de sujeito reativo. Ambos se alimentam do discurso de ruptura. Não é a questão da ruptura institucional que faz efetivamente a “cama” da extrema direita. O que a alimenta é o fato de que só ela vocalizou isso a partir de 2013 porque a esquerda sistematicamente desmoralizou e desmobilizou os protestos, algo que é mortal para nós.

Eu lembraria que, por mais que o processo chileno (manifestações ocorridas em 2019 no país), muito parecido ao brasileiro de 2013, tenha tido problemas variados, uma coisa interessante é que não foi dele que saiu o fortalecimento da extrema-direita. Ao contrário, lá existiram setores da política institucional que dialogaram com os movimentos e conseguiram ser capazes de vocalizar as questões das manifestações e conseguiram impor um processo constitucional no Chile.

Há análises que afirmam que 2013 e a Lava Jato teriam sido os principais fatos responsáveis pela queda do PT e ascensão da extrema-direita. Você concorda com isso?

Eu não avalio que a Lava Jato seria um dos principais fatores pela queda do PT. Eu fui um dos poucos que tinha lugar na imprensa oficial (fui colunista da Folha de S.Paulo) que denunciou o fato de que havia um golpe em curso, que esse golpe só fortaleceria as forças de direita e que a Lava Jato era uma operação fora da lei.

Agora esse tipo de colocação de que a Lava Jato quebrou o governo do PT tenta esconder o fato de que o que fez isso foram as contradições internas do modelo de governança. É preciso fazer uma análise mais intelectualmente honesta, precisa. São as contradições internas do modelo lulista, do dito ‘presidencialismo de coalizão’, são as paralisias internas do governo, a incapacidade desse modelo de conseguir impor um segundo ciclo de políticas de combate à desigualdade social no Brasil. É muito laudatório no pior sentido esse discurso que diz ‘caímos por causa das nossas virtudes’. Isso me deixa profundamente preocupado porque mostra a incapacidade crônica de autocritica da esquerda brasileira, em todos os seus setores, e faz com que a gente abra uma avenida para fazer os mesmos erros mais uma vez.

Os protestos de 2013 influenciaram de alguma forma o impeachment de Dilma Rousseff em 2016?

Eu não faço essa linha direta. É uma maneira errada de compreender esse processo. O que fortaleceu o impeachment da Dilma era a inviabilidade completa desse modelo conciliatório que inclusive está sendo colocado de novo em circulação. Ela sofreu um golpe das pessoas que faziam parte do seu governo. É um golpe de Estado interno e isso mostra algo muito importante: o governo não entendeu o acirramento do processo de luta de classes em que o Brasil se encontrava e que aquele era um momento de radicalização da esquerda.

O que enfraqueceu a Dilma foi o fato de que ela ganhou a eleição em 2014 com um discurso de polarização, necessário para conseguir estabelecer as suas diferenças com o candidato de direita na época (Aécio Neves-PSDB), mas depois fez um governo que não tinha nada a ver com o seu discurso. Ela espoliou os seus eleitores, que a abandonaram.

Isso tirou a base dela e politica é um jogo de forças. Quando seu adversário vê que você não tem força mobilizada ele vai pra cima. O governo não conseguiu em momento algum fazer uma contraposição efetiva, chamar as pessoas para a rua, algo que inclusive a extrema-direita faz quando se sente acuada. Ou seja, o PT disse que teve um golpe, mas participou da eleição dois, três meses depois. Que tipo de sinal que eles estão dando para a sociedade?

Em 2018, o rapper Mano Brown disse que o PT precisava “voltar para a base” para entender o povo. Na sua visão, o governo Lula atual aprendeu algo com 2013 e 2018?

Efetivamente o que se mostrou até agora é que o governo não entendeu que 2023 não é 2003. Há uma diferença enorme entre a situação da sociedade brasileira hoje e a de vinte anos atrás. Isso resulta em um governo que, após 150 dias, não mostrou ainda para a sociedade um novo horizonte, uma outra agenda politica.

Mais do que isso, ele se acomoda ao discurso da falta de correlação de forças, o que é algo inacreditável porque a esquerda nunca teve correlação de forças favorável, nunca terá e essa é uma questão completamente irrelevante para o debate politico, por mais que as pessoas possam achar isso estranho, porque a correlação de força se dá de outra forma. Não se trata de fazer um cálculo com um Congresso oligárquico que foi feito exatamente para impedir que se conseguisse governar em qualquer situação que seja.

O fato é que um governo de esquerda exige uma outra dinâmica. Veja como as feministas argentinas trabalharam a correlação de forças. Há alguns anos, elas queriam aprovar o aborto e sabiam que não tinham forças naquele momento, mas apresentaram um projeto de lei no Congresso do mesmo jeito. Perderam, mas nesse processo fizeram a sociedade discutir a pauta, mapearam todos os pontos de resistência, apresentaram outro projeto três, quatro anos depois e conseguiram aprovar.

Enquanto no Brasil, o que temos? Um governo de sindicalistas que ficou 13 anos no poder e que nunca fez um projeto de redução da jornada de trabalho, um tema clássico do sindicalismo. Portanto, é isto que acontece: a crença de que é possível civilizar o capitalismo sem conflito.